Meu pai não era só padeiro. Era alquimista da simplicidade, moldador de dias e fermentador de silêncios. O que aprendi com ele não veio em frases de efeito ou discursos longos. Veio do cheiro do pão assando de madrugada, da mão firme que sovava a massa como quem reza, do modo como ele amava o cotidiano com uma espécie de dignidade silenciosa.
Gostava de pão amanhecido — dizia que era neutro, como se o tempo o tivesse apaziguado. Nunca entendi bem se falava do pão ou da vida. Às vezes preparava um sanduíche estranho: duas bananas no meio do pão. Outras, servia um lanche vespertino que parecia receita de algum ritual antigo: pão em pedaços, vinho tinto, tomate rosa em rodelas, e uma cerveja com espuma generosa. Era assim que celebrava a tarde, talvez o descanso, talvez a própria existência.
Tirava o miolo do pão e fazia bolinhas para os pardais. E os pardais sabiam: toda manhã eles vinham, sobre a cerca do vizinho, como quem aguarda a palavra de um mestre. E ele, calado, lançava o pão com a mesma reverência de quem reparte um segredo com o mundo.
Meu pai era sistemático, mas havia graça em sua exatidão. O dono do único armazém da comunidade — sabia de cada suspiro, cada fofoca, cada silêncio atravessado. Um dia acertou um bilhete da loteria. Não comprou luxo: comprou farinha, pinga, arame farpado. Investiu em continuar sendo útil. Contava, rindo, que dobrou o prêmio — como dobrava a vida: com esperteza, coragem e a leveza de quem entende que riqueza mesmo é ter onde voltar à noite.
Nunca falou de religião, mas rezava com os olhos. Organizado, sério, valente. Era como se cada atitude sua fosse um conselho calado. E fui aprendendo, mesmo sem perceber que ser homem não se trata de parecer, mas de permanecer.
Hoje, quando penso nele, não penso apenas no pai. Penso no padeiro que sovava o mundo em silêncio, que transformava o pão em lição, que me ensinou , à sua maneira, que viver é um gesto simples, mas cheio de força.
E que amor mesmo é isso: um pão que amanhece e ainda alimenta.