Sou o intérprete
de uma alma antiga e obstinada,
ecoando em mim memórias
que o tempo não apaga.
Repasso, com mãos rudes,
as lições esculpidas
nas trilhas que cruzei,
aventuras que me moldaram
entre quedas e ascensões.
Sigo nos braços de Deus,
não como quem se rende,
mas como quem entende
o papel que lhe coube
sem ferir o que o passado sussurra,
sem calar o que a eternidade me pede.
Habito um plano sem margens,
onde o tempo escorre
sem começo ou fim,
e os momentos são miragens
num deserto de realidades paralelas.
Nunca deixei de viver
apenas vesti corpos,
personagens passageiros
que, juntos, fazem de mim
esse homem que agora respira.
Trago um corpo cansado,
um espírito inquieto,
e ainda assim me dobro
às falas deste novo ato.
Mas fraquejar?
Depois de tantas cenas,
tantas máscaras e cenários?
Não seria agora…
Firmarei o passo até o fim da peça.
Serei, até o último gesto,
esse intérprete fiel
de uma alma
tão antiga,
tão jovem,
tão minha.