Há quanto tempo vives em mim
Amanheces comigo,
dormes em meus silêncios,
e acordas
feito névoa doce
nos sonhos que me invadem.
Quanto tempo o tempo
tem vivido em nós?
Como um traço fundo,
entalhado na pele da memória.
Dividimos o berço,
a saliva,
um gole de refrigerante
e somamos o riso,
as dores,
como quem aprende
a viver sendo um só em dois corpos.
Trilhamos caminhos idênticos,
calçados nos mesmos valores,
vendendo ilusões por migalhas de paz
e comprando sonhos
como se fossem sementes
de algo maior.
Mostramos ao mundo
a beleza do simples:
ser feliz.
Ser humano.
Ser inteiro.
Ser nós.
Florindo onde quer que a vida plante,
mesmo sabendo
lá no fundo
que não viemos pra ficar.
Ainda assim,
te guardo em mim
como se a eternidade
nos pertencesse.
Como se o tempo
não tivesse coragem
de nos separar.
Somos história bordada
em linhas invisíveis,
laços que não se desfazem
com o vento,
com a ausência,
com a morte.
Somos o instante que permanece
quando tudo se vai.
O gesto simples que ecoa
na alma do tempo.
E quando enfim partirmos,
seremos raízes no coração do mundo.
Seremos lembrança que floresce
em cada novo amanhecer.