Rio abaixo segue a vida.
Não há mapas, só correntezas.
Às vezes lenta como suspiro,
outras, veloz como angústia.
No meio do rio há sabedoria:
não tão perto das margens,
onde os galhos prendem e as pedras ferem,
nem tão fundo que o medo paralise.
A água ensina o movimento,
mesmo quando nos lança contra obstáculos.
O poço parado seduz com a promessa de descanso,
mas pesa, cansa, estanca.
É preciso voltar ao fluxo.
Na praia, um respiro.
Um intervalo para sentir o corpo,
ouvir os pensamentos,
olhar os olhos dos guardiões ocultos
que vigiam as escolhas.
Mas não se fica ali para sempre.
O rio chama, e a jornada prossegue.
Há quem tente subir,
voltar à nascente,
agarrar o que já passou.
Afundam.
Então se aprende:
seguir é viver.
Até o dia em que a água se alarga,
e o sal do mar recebe a alma cansada.
Ali está o Pai.
Não no início,
mas na foz,
onde tudo se transforma
e o rio, finalmente, entende
por que precisou descer.