Quando me aposentei, em 2013, senti-me como um pássaro que, depois de uma vida inteira preso numa gaiola de compromissos, não sabia mais como voar. Foram décadas entre salas de aula e um laboratório clínico, uma rotina rígida e previsível, da qual eu pouco saía. O mundo lá fora parecia um desconhecido, quase hostil.
Com o tempo, fui me soltando dessa prisão invisível. Comecei a ajudar minha esposa meio período em sua distribuidora de embalagens. Mas algo dentro de mim ainda ansiava por mais. Sentia que precisava preencher o tempo com algo que fosse só meu e que ao mesmo tempo servisse ao outro.
Foi então que uma ideia me visitou com a leveza de uma borboleta, mas com a força de uma paixão: montar uma marcenaria na chácara. Um hobby, uma terapia, um gesto de amor. Não para ganhar dinheiro — essa era a parte mais bonita — mas para transformar sobras de madeira em brinquedos e móveis simples para os mais necessitados.
Empolgado, construí um galpão. Comprei ferramentas, máquinas, organizei tudo com zelo quase artesanal. Havia potes com pregos de todos os tamanhos, parafusos, miudezas em seus devidos lugares. Fiz curso de marcenaria, aprendi sobre medidas, segurança, encaixes, técnicas. Passei horas estudando tutoriais, vídeos, sites. O sonho tomava forma, peça por peça.
Quando me senti pronto, preparei uma ida à chácara. Seriam três dias de trabalho, alma e madeira. Botina nos pés, ferramentas no coração.
Mas o que encontrei foi o silêncio seco da decepção. A porta arrombada, o vazio gritante. O ladrão levara tudo. Máquinas, ferramentas, acessórios. Ficara só o chão frio e uma dor funda na alma.
Não era só material o que havia sido levado. Era um sonho. Um ideal. Uma parte de mim.
Descobri depois que o ladrão era um fugitivo da penitenciária, escondido na chácara vizinha. Um homem em fuga, perdido de si mesmo. Pouco tempo depois, soube de sua morte pelas palavras frias de um policial local. E, com ele, morria também meu desejo de recomeçar.
Não tive coragem.
Enterrei aquele sonho com a delicadeza de quem enterra algo precioso. Mas a vida — ah, a vida sempre encontra uma brecha para florescer.
Hoje, em lugar da madeira, lido com fios de linha. Aprendi a fazer crochê. Minhas mãos, antes habituadas ao peso das ferramentas, agora dançam com uma agulha, um novelo e uma tesoura. Faço inúmeras peças que doo a uma entidade de caridade. Elas vendem tudo em um bazar, e o dinheiro vira esperança para quem precisa.
Esse sonho ninguém me rouba. Só Deus. E, talvez, tenha sido Ele mesmo quem me desviou do caminho anterior. Quem sabe me protegeu do risco das máquinas, do isolamento, do perigo.
Hoje, não me apego mais a sonhar com coisas. Deixo que Deus sonhe em mim. E assim, Ele me molda com fios invisíveis, em silêncio, tal qual um artesão divino.