Textos
ATRAVESSAR O SILÊNCIO
As palavras que guardei
ficaram presas entre os dentes,
não por covardia,
mas por cuidado.
O medo de ferir
às vezes fala mais alto
que o desejo de ser ouvido.
Fiz escolhas silenciosas,
caminhos de gestos,
de ausência de ruído,
de olhos que não evitavam
mas também não pediam.
Deixei de lado a vaidade do elogio,
temendo o peso que ele traz.
Aceitei a crítica como espelho,
não como sentença.
Com o tempo,
o sentir deixou de arder,
virou pele grossa,
uma espécie de escudo
que não repele,
mas também não absorve.
Não há mágoa.
Não há perdão.
Só o reconhecimento
de que ninguém pode mais me atingir.
O saber trouxe dores novas,
mais finas, mais profundas,
como se cada descoberta
rasgasse uma parte da ilusão.
O corpo reclama.
Mas há algo em mim
que brilha no meio da dor,
como se a alma dançasse
sobre as brasas da consciência.
É assim que cresci:
perdendo ilusões,
aceitando a finitude,
e ainda assim,
seguindo em frente.
Tião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 06/05/2025
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