Outro dia, entre um café e uma conversa despretensiosa, brinquei: hoje em dia, parece haver mais terapeutas do que loucos. A piada provocou risos, mas deixou no ar uma inquietação séria — e sincera. Que tempo estranho é esse em que os conselhos, antes reservados a sábios e vividos, viraram mercadoria nas prateleiras de cursos rápidos e promessas mágicas?
Não quero parecer injusto. Acredito na terapia, na boa terapia. Aquela feita por quem estudou com profundidade e, mais ainda, viveu o suficiente para entender a alma humana em sua complexidade. Psiquiatras sérios, psicólogos bem formados, profissionais que sabem que o sofrimento não cabe em fórmulas prontas.
O que me preocupa é o desfile de "curadores" que surgem como cogumelos após a chuva. Gente que se diz terapeuta da noite para o dia, empunhando um certificado recém-impresso e uma convicção perigosa. Muitos deles, ironicamente, tão ou mais perdidos do que os pacientes que atendem. Conheço casos. Pessoas que não conseguem lidar com suas próprias dores, mas vendem receitas de felicidade.
A sociedade está doente — e não apenas de depressão ou ansiedade. Está doente de pressa, de vaidade, de excesso de aparência e falta de essência. As redes sociais, com seus sorrisos envernizados, vendem uma vida que ninguém vive de verdade. E, nesse cenário, surgem os oportunistas: baralhos terapêuticos, videntes modernos, livros de autoajuda com frases de efeito que não sustentam a dor de uma madrugada insone.
Não, não estou imune. Também sinto o peso dos dias, as angústias silenciosas, as dúvidas existenciais. Mas foi a filosofia que me ensinou a não buscar atalhos. A pensar, a desconfiar, a duvidar do óbvio — inclusive do óbvio vendido por certos terapeutas de ocasião.
Talvez soe duro. Talvez tenha generalizado. Mas minha intenção não é atacar, e sim alertar. O sofrimento humano merece respeito. Não pode ser tratado como oportunidade de negócio por quem não tem preparo, nem ética. A dor não é mercado.
Sei que há bons profissionais por aí, lutando para fazer a diferença. E a esses, minha admiração sincera. Mas aos demais, um pedido: se não puder ajudar, ao menos não atrapalhe. Porque há momentos em que um conselho mal dado pesa mais que o silêncio.
E o silêncio, às vezes, é o primeiro passo para a cura.