Não tenho medo da morte.
Tenho medo de morrer.
De sentir o instante em que tudo escapa,
o corpo se entrega,
e o tempo, esse velho companheiro, me solta a mão.
Essa casca que me veste
nunca conheceu o fim.
Talvez a alma, sim,
já atravessou desertos invisíveis
e voltou em silêncio.
Temo o que não posso nomear.
O vazio que se abre quando fecho os olhos
e não sei se volto.
Temo a ausência do que amo,
a saudade do que fui,
ou talvez a solidão
de não ser mais nada.
Temo perder a chance de crescer,
de amar com mais verdade,
de rir mais leve,
de perdoar a tempo.
Temo as mentiras que contei a mim mesmo
para seguir vivendo.
Temo o momento de desfazer-me,
de esvaziar os bolsos da alma
e encontrar neles apenas silêncios.
E o medo maior,
esse que se esconde nas dobras da consciência,
é o da conta que chega:
pelos gestos omitidos,
pelos passos evitados,
pelo amor recusado.
Será a morte um ponto final?
Ou o sopro que apaga a vela
para acender outra luz?