Hoje senti saudade de mim.
Há quanto tempo não me vejo?
E pensar que demorei tanto para me encontrar.
Olhar-me nos olhos.
Fazer perguntas sem fugir das respostas.
Examinar-me por dentro,
num diálogo franco —
sem mentiras, sem afagos que anestesiam.
Parei diante do espelho.
Havia um olhar vazio.
Rugas traçadas pelo tempo.
Lábios em silêncio.
Foi aí que senti o cansaço.
Não aquele que convida à cama,
mas o cansaço da alma.
Minha alma está há quase setenta anos sem férias.
Cansada de olhar o mundo,
de conviver com tanta diferença,
com tanta exigência de ser.
Há um peso que não é do corpo.
É como se a alma quisesse abrir um zíper e sair correndo,
fugir de tanto não ser.
Não dá para explicar.
É preciso sentir,
respirar isso para entender.
Viver para os outros cansa.
Eles são razão de alegria,
mas também do esgotamento que sobra depois.
Ainda bem que a poesia sempre me acolhe,
me perdoa os desabafos.
Não, eu não desisti.
Mas queria férias de mim.
Não ter que explicar,
não ter que sorrir.
Apenas silenciar,
ficar quieto em algum lugar,
ler devagar,
descansar a alma —
sem culpa,
sem máscaras,
sem pressa.