Perdi.
E foram tantas perdas que quase perdi a conta.
A mãe que me deu a vida, levou parte da minha ao partir.
A mãe que me deu amor, esmoreceu diante da dor.
O pai do sangue, vencido pela doença.
O pai do afeto, sucumbiu ao próprio coração.
Um irmão se foi sem aviso,
O outro, levado por um instante brusco.
E um filho…
Ah, o filho que partiu antes do tempo.
Perdi minha voz no momento em que mais precisava falar.
Perdi a fé quando mais precisava crer.
Perdi a doçura, que o corpo já não pôde sustentar.
Perdi tempo demais em caminhos que me afastavam de mim.
Perdi a esperança como quem deixa cair algo no escuro.
Perdi amores como quem perde pedaços da alma.
Perdi o que pensei que nunca poderia perder.
Então parei.
E comecei a contar os ganhos.
Descobri que não cabem em lista alguma.
A cada dia, um novo dom, um novo alento,
uma presença, um gesto, uma luz.
Os ganhos seguem,
incontáveis, silenciosos, constantes.
A lista de perdas tem fim.
A de bênçãos, não.