Textos
O DIÁRIO DE UMA JANELA
Sou moldura de mundos,
translúcido entre o dentro e o fora.
Vejo sem olhos, ouço sem tímpanos —
sou o silêncio que tudo atravessa.
Passam por mim corpos
em trajes íntimos e promessas vãs,
o amor feito em sofás de rotina,
jurado entre quatro paredes e meia luz.
Lá fora, o picolé derrete
ao som grave do caminhão do lixo,
um cão fareja a tarde,
e uma mulher apressa seus passos
como quem foge de si.
Assisto ao sol,
que nasce em minha superfície
e se despede nos vidros embaçados
de um dia qualquer.
Habito dois reinos:
o do toque e o do vento.
Mas jamais toco o que sinto,
nem sinto o que vejo.
Sou a pele da casa,
mas não tenho alma.
E ainda assim —
às vezes —
sinto a mesma solidão
de quem espera
sem ser visto
na janela...
Tião Neiva
Sebastião Neiva
Enviado por Sebastião Neiva em 18/04/2025
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