Outro dia, entre uma troca de mensagens e risadas mornas com um velho amigo no WhatsApp, nos pegamos, como sempre, navegando pelas águas nostálgicas dos tais "bons tempos". Falamos de tudo: dos jogos de várzea que pareciam finais de Copa do Mundo, dos filhos que agora já são pais, das pedras no caminho que não param de brotar. Rimos de histórias antigas, nos reconhecendo naquilo que fomos e talvez ainda sejamos, disfarçados pelo tempo.
No meio da conversa, surgiu o nome dele — o amigo calado. Aquele que costumava ser presença constante nos nossos encontros e nos grupos. “Será que está sem celular?” “Ou foi roubado?” “Quem sabe só está quieto.” O silêncio, que antes nos parecia apenas mais um desses sumiços passageiros da vida moderna, logo se revelou algo muito mais definitivo: ele havia morrido. Há sessenta dias.
Sessenta dias de silêncio absoluto. Sessenta dias em que ele já não caminhava por esse mundo, e nós, seus amigos de tantas histórias, sequer percebemos. Ele se foi com 88 anos, sozinho, sem filhos, com poucos parentes distantes. Partiu sem que nenhum de nós estivesse lá, nem ao menos com uma prece, uma palavra, um gesto.
Foi como se ele tivesse evaporado, e só agora nos demos conta. E eu me pergunto: onde estávamos nós?
A primeira reação foi procurar desculpas. Ah, o tempo é curto, a vida é corrida, a correria do dia a dia... Mas essas desculpas soam pequenas, quase mesquinhas, diante da dor que brotou no meu peito. Não por sua morte em si — a idade chega para todos —, mas pelo nosso esquecimento, pela nossa omissão disfarçada de distração. Fomos displicentes. Desumanos, talvez.
A verdade é dura: deixamos um amigo morrer em silêncio. Um homem que nos ofereceu companhia, histórias, afeto. E nós, ocupados demais com nossas vidas, nem percebemos sua ausência.
É mais do que falta de tempo. É falta de presença. De cuidado. De caridade.
Fico aqui, encarando esse luto que não é só dele, mas meu. Um luto por mim mesmo, pela parte de mim que se perdeu nesse descaso. Pela amizade que não soube retribuir. Pela humanidade que se escondeu atrás de notificações, compromissos e distrações.
Peço perdão. A ele. A mim. E ao tempo, esse que tantas vezes culpamos, mas que apenas revela quem realmente somos.