Ocultei segredos nossos
em palavras que calei por medo,
ou talvez por uma maturidade
que me visitou tarde demais.
Não menti,
mas o tempo, paciente e astuto,
me desmentiu
com a leveza de quem sabe esperar.
Há desconforto nas lembranças,
como se cada memória fosse um espelho rachado
revelando ângulos
que nunca quis encarar.
As verdades se retraem,
cedem espaço a versões mais sutis,
e a vida,
essa contínua impermanência,
vai desmentindo até o que parecia eterno.
Tatuagens que desbotam
poesias que não me pertencem mais
bilhetes dobrados como corações antigos
flores secas em livros nunca relidos
bijuterias que não combinam com o agora
promessas esquecidas num idioma perdido.
O álbum ainda está lá,
mas a foto recortada denuncia
que o amor, às vezes, é amputado
por mãos que não sabem mais onde tocar.
Tudo pode ficar :
os objetos, os gestos, os cheiros,
mas o verdadeiro amor,
às vezes,
fica do lado de fora do tempo.
Ou será que é a verdade
que escolhe
quando permanecer?