— Que rumo tomar? —
perguntou o discípulo,
com os olhos abertos como janelas em manhã de neblina.
O mestre olhou adiante,
como quem vê o tempo dobrar nas margens da alma,
e respondeu com voz de silêncio:
— Para onde queres ir?
Pois quem não tem um norte,
aceita qualquer vento,
segue qualquer trilha,
e se perde achando que caminha.
— Quero ser sábio — disse o jovem,
com a urgência de quem deseja tocar o céu com as mãos nuas.
O mestre então, mais do que ensinar,
despiu verdades:
— A sabedoria, meu filho,
não se encontra nos livros ou nas vozes dos homens,
mas nas cavernas ocultas do ser,
onde se escuta o eco do próprio nome.
É um fruto que amadurece lento,
em meio a tempestades internas,
a quedas,
a renúncias silenciosas,
a noites em que o pensamento rasga a carne
para encontrar um feixe de luz.
É um caminho de resignação sem conformismo,
de dor sem desespero,
de perguntas que nunca cessam
e respostas que nascem do silêncio.
Estar no mundo sem ser do mundo.
Caminhar entre os homens
sem deixar que as ilusões façam morada.
Não é fugir,
mas observar de longe,
como o sol que aquece sem descer ao chão.
Quantos avatares vieram antes?
E todos foram pedra no sapato do poder.
Porque quem pensa, transforma.
E quem transforma, ameaça o que domina.
Talvez um dia voltemos a nos ver.
Talvez quando tu fores mais maduro,
ou quando a dor te for mestra e não apenas castigo.
A sabedoria dói,
porque é luz que invade a sombra,
mas tenta.
Tenta mesmo que sangres por dentro,
porque são caminhos que só quem passa pode contar —
e mesmo assim, em silêncio.