Há dias em que tudo parece fugir,
como se o sentido tivesse se ausentado,
como se o mundo estivesse embaçado
e nós dentro dele, deslocados.
Não é o dia que está ruim,
somos nós que não estamos inteiros.
O corpo está aqui,
mas a alma se ausentou de leve,
sem aviso, como quem vai
buscar silêncio.
A vontade se retrai,
o pensamento se emaranha,
a concentração escorre pelos dedos
e até a leitura, companheira fiel,
torna-se peso.
O humor se contorce,
e qualquer palavra se torna farpa.
A mente desalinha,
o tempo se arrasta
feito sombra sem corpo.
É nostalgia, talvez.
Mas de quê?
Lembranças que não consigo acessar,
saudade do que não sei,
de um lugar que talvez nunca exista.
Um não-viver,
um momento de se despir de tudo,
até de si mesmo.
E nesse vácuo,
nos percebemos impotentes
para levar a alma de volta ao trilho,
para tirar os sentimentos do fundo escuro.
Mas passa.
Ainda que pareça não passar,
passa.
Como uma nuvem que não deixa rastros,
e o céu azul, um dia,