O mundo gira, impassível. O sol nasce e se põe como sempre fez. A lua ilumina as noites com seu brilho ancestral. A abóbada celeste segue seu ritmo, indiferente às angústias humanas. E nós? Evoluímos? Tornamo-nos melhores?
Os homens de outrora também se confrontavam com suas sombras. As tragédias gregas denunciavam o orgulho e a vaidade. As escrituras sagradas advertiam sobre a ira e a ganância. Filósofos apontavam a fragilidade dos desejos humanos. Hoje, vestimos roupas diferentes, seguramos telas luminosas, percorremos estradas asfaltadas em máquinas velozes. Mas será que, sob essa casca tecnológica, nos tornamos mais virtuosos?
Os relacionamentos continuam frágeis, as ambições ainda nos corroem, e as guerras, embora travadas com drones em vez de espadas, persistem como marcas da nossa natureza belicosa. O homem moderno não se libertou do egoísmo, apenas o refinou com discursos sofisticados. Não erradicou a hipocrisia, apenas a disfarçou com aparências. Como bem disse Schopenhauer, "o homem pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer". Estamos acorrentados a nossas próprias contradições.
Se houvesse real progresso moral, a generosidade teria superado a cobiça, a paciência teria vencido a impaciência, e o amor incondicional teria suplantado os interesses mesquinhos. Mas não. O homem de hoje, assim como o de ontem, busca poder, quer ser admirado, teme a solidão e teme a morte.
A questão que fica é: o que, afinal, significa evoluir? Se progresso for apenas o acúmulo de conhecimento técnico, então somos grandiosos. Mas se for o refinamento do espírito, talvez estejamos parados no mesmo lugar. O tempo avança, mas o homem continua o mesmo, contemplando o céu e perguntando-se, como há milênios: "quem sou eu?"